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Piazza del Campo e Palazzo Pubblico

O coração pulsante da república medieval, onde nove setores convergem para o palácio que governou Siena por séculos.

Aproximação pela cidade medieval

O coração pulsante de Siena: Piazza del Campo com a Torre del Mangia erguendo-se 102 metros
O coração pulsante de Siena: Piazza del Campo com a Torre del Mangia erguendo-se 102 metros
À medida que nos aproximamos, os edifícios medievais revelam seus segredos arquitetônicos
À medida que nos aproximamos, os edifícios medievais revelam seus segredos arquitetônicos

A aproximação à Piazza del Campo é uma experiência em si. Você caminha por vielas estreitas de tijolo e pedra, entre lojas artesanais e pequenos cafés, e de repente, a praça se abre diante de você como uma revelação.

Essas ruas comerciais mantêm o mesmo caráter há séculos. Onde hoje há boutiques e gelaterias, antes havia ferreiros, sapateiros e mercadores de tecidos. Mas a escala, o ritmo, a sensação de estar dentro de um labirinto medieval permanece intacta.

Siena foi construída sobre três colinas (terzi: Terzo di Città, Terzo di San Martino, Terzo di Camollia), e a Piazza del Campo fica no vale onde as três convergem. Não é coincidência, a praça nasceu no ponto de encontro natural das três áreas da cidade, tornando-se o coração geográfico e simbólico de Siena.

A concha que abraça uma república

De onde quer que você se aproxime, a primeira vista da praça surpreende. A forma côncava, como um anfiteatro invertido, convida a descer. O Palazzo Pubblico, em tijolo vermelho escuro, domina a parte mais baixa. E ao seu lado, a Torre del Mangia se ergue como uma exclamação vertical que pode ser vista de quase toda a cidade.

O formato não é acidental. A praça em forma de concha ou leque inclinado foi desenhada para convergir toda a atenção ao Palazzo Pubblico, o edifício governamental que representa o poder do povo. É uma das praças medievais mais bonitas do mundo e Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1995.

As nove linhas brancas de travertino que dividem a praça, símbolo do Governo dos Nove
As nove linhas brancas de travertino que dividem a praça, símbolo do Governo dos Nove

As linhas brancas de travertino que dividem a praça em 9 seções não são meramente decorativas. Elas representam o Governo dos Nove (Consiglio dei Nove) que governou Siena de 1287 a 1355, considerado o período de ouro da República de Siena.

Este conselho era composto por nove magistrados escolhidos entre os membros das famílias mercantis e bancárias da cidade, o chamado “popolo grasso” (povo gordo, ou seja, a burguesia rica). Os nove governadores eram eleitos a cada dois meses e não podiam ser imediatamente reeleitos, numa tentativa de evitar a concentração excessiva de poder.

Durante o governo dos Nove, Siena viveu seu apogeu econômico e cultural. A cidade se consolidou como importante centro bancário europeu, foram construídos alguns dos principais monumentos incluindo o Palazzo Pubblico e a Torre del Mangia, floresceu a Escola Sienesa de pintura com artistas como Duccio di Buoninsegna e Simone Martini, e foi encomendado o célebre afresco “Alegoria do Bom e do Mau Governo” de Ambrogio Lorenzetti (1338-1339).

O piso em tijolos vermelhos (mattoni) está disposto em padrão espinha de peixe (opus spicatum), técnica romana antiga ainda usada. Foi construído em 1349, logo após a devastadora Peste Negra que matou metade da população de Siena, um ato de resiliência e renovação em meio à tragédia.

Fonte Gaia, a alegria da água

Fonte Gaia na parte superior da praça com suas esculturas renascentistas
Fonte Gaia na parte superior da praça com suas esculturas renascentistas

Na parte superior da praça está a Fonte Gaia (Fonte da Alegria), uma das fontes mais famosas de Siena. A água jorrou pela primeira vez aqui em 1346, um evento de enorme alegria para os sienenses, daí o nome “Gaia” (alegre).

Trazer água ao topo da colina onde fica a Piazza del Campo foi façanha de engenharia impressionante para a época. O aqueduto subterrâneo (bottini) tinha 25 km de extensão. A chegada da água à praça principal foi tão importante que a população celebrou com festividades por dias.

A fonte atual é uma cópia, a original renascentista esculpida por Jacopo della Quercia (1409-1419) está preservada no complexo de Santa Maria della Scala para protegê-la da erosão. Mas a água ainda jorra, conectando presente e passado através do mesmo sistema de aquedutos medieval.

Os bottini são túneis cavados na rocha que se estendem por dezenas de quilômetros sob a cidade. Alguns têm mais de 800 anos e ainda funcionam perfeitamente. É possível visitá-los em tours guiados, uma experiência única de caminhar pelos mesmos túneis que engenheiros medievais escavaram palmo a palmo.

Cortile del Podestà

O pátio interno do Palazzo Pubblico com suas arcadas góticas perfeitas
O pátio interno do Palazzo Pubblico com suas arcadas góticas perfeitas

Atravessar o portão principal do Palazzo Pubblico é entrar no coração político de Siena. O Cortile del Podestà, com suas arcadas góticas em tijolo e janelas trifórias no andar superior, serve há séculos como entrada monumental para o edifício mais importante da cidade.

O pátio interno é majestoso. Arcadas góticas perfeitas criam uma perspectiva dramática. Pavimentação em tijolos em padrão espinha de peixe. Capitéis decorados nas colunas. Brasões das famílias que serviram no governo. Janelas trifórias góticas no andar superior, três arcos divididos por colunas, especialidade arquitetônica sienense.

Durante o Palio, o piso do pátio é coberto com tufo (a mesma areia usada na praça) e os cavalos esperam aqui antes da corrida, em momentos de tensão máxima. É também o acesso à Torre del Mangia e ao Museo Civico.

Il Palio, quando a Idade Média volta

Duas vezes por ano, 2 de julho e 16 de agosto, a Piazza del Campo se transforma em pista de corrida. O Palio di Siena é a manifestação mais intensa e autêntica da identidade sienense.

O Palio não é um evento turístico, é o momento em que as 17 contradas (bairros medievais) competem pela honra e pelo Drappellone (estandarte). Apenas 10 contradas correm em cada Palio (7 são sorteadas + as 3 que não correram no Palio anterior).

O piso da praça é coberto com tufo (terra vulcânica), e o formato em curva torna a corrida extremamente perigosa. Os cavalos correm sem sela, a pelo! Os fantini (jockeys) podem usar chicotes não só nos cavalos mas também uns nos outros. E o cavalo vence, não o jockey, mesmo que o jockey caia, se o cavalo cruzar a linha, a contrada vence!

A corrida dura aproximadamente 90 segundos. Três voltas frenéticas ao redor da praça. Quedas são comuns, especialmente na curva de San Martino. Mas para os sienenses, o Palio não é sobre cavalos, é sobre pertencimento, história familiar, rivalidades seculares e identidade de bairro que atravessa gerações.

Nos dias do Palio, a cidade inteira para. Escritórios fecham. Escolas param. Famílias inteiras vestem as cores de suas contradas. E quando o tufo cobre os tijolos e os cavalos esperam nervosos, a praça se transforma. Os sinos da Torre del Mangia ressoam. Bandeiras tremulam. Milhares de vozes gritam. E por 90 segundos frenéticos, a Idade Média volta com toda força, paixão tribal, rivalidades ancestrais, identidade que transcende séculos.

Democracia medieval trancada

Função defensiva, até nos detalhes
Função defensiva, até nos detalhes

Os grandes portões de madeira maciça, cobertos por centenas de pregos de ferro dispostos em padrões geométricos, não são meramente decorativos. Esses cravos (borchie) tinham função militar crucial.

Protegiam a madeira contra aríetes, os pregos impediam que aríetes (troncos usados para derrubar portas) conseguissem impacto direto. Dificultavam incêndios, o fogo não se espalhava facilmente pela superfície coberta de metal. Reforçavam estruturalmente, prendiam tábuas de madeira adicionais ou chapas de ferro por trás. E intimidavam visualmente, demonstravam que o edifício estava preparado para resistir a ataques.

Mas mesmo em elementos defensivos, os sienenses não abriam mão da estética. Os pregos estão dispostos em linhas diagonais e molduras retangulares, forma e função caminhando juntas.

Entre 1287 e 1355, Siena não era monarquia nem governo papal, mas uma república mercantil governada por magistrados eleitos. Nove homens, escolhidos de famílias mercantis (não nobres!), governavam com mandatos de apenas dois meses.

O mais extraordinário: durante esse período, os Nove viviam literalmente trancados no palazzo para evitar corrupção e pressão externa. Não podiam sair, não podiam receber visitas privadas, não podiam ser influenciados por parentes ou aliados. Era democracia medieval levada ao extremo, radical mesmo para padrões modernos.

Este sistema funcionou por quase 70 anos, um período de estabilidade política, prosperidade econômica e florescimento artístico sem precedentes. Foi nessa época que nasceram obras-primas como os afrescos de Ambrogio Lorenzetti sobre o Bom e Mau Governo, que ainda decoram as salas do palazzo.

Torre del Mangia, desafiando os céus

Perspectiva vertiginosa da torre entre as arcadas góticas
Perspectiva vertiginosa da torre entre as arcadas góticas

Do pátio, a Torre del Mangia se ergue como uma exclamação vertical. Com seus 102 metros de altura, construída entre 1325 e 1348, é uma das torres mais impressionantes da Itália. E seu nome tem origem hilária que os sienenses adoram contar.

O sineiro preguiçoso que ficou imortal

A Torre del Mangia erguendo-se 102 metros acima da cidade
A Torre del Mangia erguendo-se 102 metros acima da cidade

A torre recebeu o nome de Giovanni di Balduccio, o primeiro sineiro (campanaro), que tinha o apelido de “Mangiaguadagni” (literalmente “come-ganhos” ou “come-lucros”) porque era conhecido por ser preguiçoso, gastar todo seu salário em comida e bebida, e viver na farra! Os sienenses, com seu senso de humor característico, imortalizaram o nome desse folgado na torre mais importante da cidade.

Mas a torre tinha também função simbólica e política séria. Foi propositalmente projetada para ser mais alta que qualquer torre em Florença, era uma declaração de superioridade, um “somos mais poderosos que vocês!” arquitetônico. Na época foi a estrutura mais alta da Itália.

Detalhe intencional profundamente simbólico: a altura da Torre del Mangia (102m) é exatamente igual à altura da cúpula do Duomo de Siena. Isso não foi acidente, simboliza que em Siena, o poder secular (governo) e o poder religioso (igreja) eram iguais. República antes de tudo.

Na base da torre, visível da praça, a estrutura branca em mármore é a Cappella di Piazza, construída em 1352 como voto de agradecimento à Virgem Maria pelo fim da Peste Negra que devastou Siena em 1348.

A peste foi catastrófica. Matou metade da população da cidade (cerca de 65.000 pessoas morreram em poucos meses). Interrompeu a construção da ambiciosa ampliação do Duomo, projeto que faria de Siena a maior catedral do mundo. Marcou o fim do período de ouro. A cidade nunca mais recuperou seu poder econômico anterior.

A capela é lembrança permanente de que glória e tragédia caminham juntas na história das cidades.

Conexões urbanas - rede medieval viva

Vielas que partem da praça conectando ao tecido urbano histórico
Vielas que partem da praça conectando ao tecido urbano histórico

A praça não é ilha isolada, é nó central de uma rede urbana complexa. Dezenas de vielas medievais convergem aqui, cada uma trazendo seu fluxo de pessoas, histórias e vida cotidiana.

Essas conexões foram cuidadosamente planejadas no século XIII quando a praça foi formalizada. Arquitetos medievais entenderam que uma praça pública só funciona se for acessível de todos os bairros, de todas as contradas.

Cada viela que desemboca na praça tem seu próprio caráter. Algumas são comerciais, repletas de lojas que vendem panforte e ricciarelli (doces tradicionais sienenses), enquanto outras permanecem estritamente residenciais, onde moradores ainda penduram roupas nas janelas e onde gatos dormem nos peitoris de pedra. Essas diferenças não são aleatórias, refletem a estrutura das contradas, onde cada bairro mantém sua própria identidade econômica e social. Via di Città, que chega pela parte superior, sempre foi a rua dos comerciantes ricos. Via Rinaldini, mais estreita, era território de artesãos. E essas hierarquias invisíveis ainda podem ser sentidas na arquitetura e no uso cotidiano dos espaços.

O sistema de drenagem da praça também revela genialidade medieval. A inclinação em concha não é apenas estética, direciona toda água da chuva para um único ponto de drenagem no centro da parte mais baixa, de onde segue para os bottini (túneis subterrâneos que formam o antigo sistema de aquedutos). Este sistema ainda funciona perfeitamente depois de sete séculos, garantindo que mesmo em tempestades intensas a praça nunca alague. É engenharia hidráulica medieval em pleno funcionamento, invisível aos visitantes mas essencial para preservar tanto o piso histórico quanto o palazzo. Os mesmos túneis que traziam água potável para a Fonte Gaia levam embora a água da chuva, ciclo completo planejado há mais de 700 anos.

Elementos arquitetônicos que conectam a praça principal ao Duomo e aos bairros vizinhos
Elementos arquitetônicos que conectam a praça principal ao Duomo e aos bairros vizinhos

Coração que ainda bate

Séculos e séculos
Séculos e séculos

O Palazzo Pubblico ainda funciona como prefeitura de Siena (Comune di Siena), escritórios no segundo andar. O primeiro andar abriga o Museo Civico com obras-primas como as Alegorias do Bom e Mau Governo de Lorenzetti, a Maestà de Simone Martini, e outras salas ricamente decoradas com afrescos dos séculos XIV-XVII.

A Piazza del Campo permanece o coração pulsante de Siena. Não é apenas monumento histórico, é praça viva onde sienenses se encontram, turistas descansam sentados no chão inclinado, crianças brincam, estudantes conversam, casais namoram.

A praça e o palazzo permaneceram praticamente intactos há 700 anos, guerras, terremotos, Peste Negra, Segunda Guerra Mundial, testemunharam tudo e permaneceram. O mesmo chão que testemunhou o Governo dos Nove, que viu a Peste Negra devastar a cidade, que assistiu à queda da república em 1555, ainda abraça Siena em sua concha de tijolo e travertino.

E se por acaso você se mudar para Siena, é aqui, na Comune di Siena (prefeitura), que você irá realizar importantes etapas de sua documentação como imigrante, continuando a tradição de séculos de pessoas que passaram por estas arcadas para resolver assuntos de cidadania.

A Piazza del Campo e o Palazzo Pubblico não mudaram em 700 anos. E continuarão assim, porque alguns lugares não são apenas arquitetura. São alma de uma cidade inscrita em pedra, memória física de uma república que preferiu morrer de fome a se render sem luta, e cujo espírito permanece vivo em cada tijolo, em cada arco, em cada batida de sino que ecoa da Torre del Mangia.

Fontes e Referências