Entre o mito e a história
Siena ergue-se sobre três colinas na Toscana, enraizada em camadas de história que remontam aos etruscos e à posterior colonização romana. No entanto, a cidade prefere uma origem mais épica: segundo a lenda, foi fundada por Sênio e Ásquio, filhos de Remo — irmão de Rômulo na fundação de Roma.
Fugindo da perseguição do tio Rômulo, os dois irmãos teriam cavalgado para o norte até estas colinas toscanas, trazendo consigo a loba capitolina como símbolo. Por isso, até hoje, a imagem da loba amamentando os gêmeos povoa as ruas, fontes e brasões de Siena — não como mera referência a Roma, mas como marca de uma identidade própria, construída sobre a rivalidade e a diferença.
A história documentada é menos mitológica, mas não menos fascinante. Como assentamento etrusco e depois colônia romana chamada Saena Julia, Siena ocupava uma posição estratégica na Via Francigena, a principal rota de peregrinação medieval entre Roma e o norte da Europa. Essa localização transforma a cidade em um próspero centro comercial e bancário durante a Idade Média.
A rival eterna de Siena
Entre os séculos XII e XIV, Siena vive seu apogeu como república independente, governada por um sistema complexo de magistrados e conselhos que representavam as diversas corporações de ofício. Nesse período, torna-se a principal rival de Firenze, não apenas política e economicamente, mas também culturalmente.
Enquanto siena abraçava o Renascimento e suas ideias humanistas, Siena mantinha-se fiel à tradição gótica e à espiritualidade medieval. A Escola Sienesa de pintura, com mestres como Duccio di Buoninsegna, Simone Martini e Ambrogio Lorenzetti, desenvolve um estilo próprio: menos interessado na perspectiva matemática florentina e mais dedicado à emoção, à cor dourada e à representação do sagrado.
O confronto militar entre as duas cidades atinge seu ápice na Batalha de Montaperti, em 1260, quando Siena, contra todas as expectativas, derrota o exército florentino muito superior em número. A vitória é celebrada até hoje, mas não garante a supremacia duradoura. Em 1555, após um longo cerco, Siena cai sob o domínio dos Médicia, perdendo sua independência definitivamente.
Preservada no tempo
A Peste Negra em Siena, especialmente a epidemia de 1348, devastou a cidade. Segundo alguns registros históricos, matando entre 50% a 60% de sua população. Mas o que poderia ter sido uma tragédia acabou por preservar Siena de forma quase intacta. Sem a pujança econômica florentina dos séculos seguintes, a cidade não passou pelas grandes transformações urbanas do Renascimento e do Barroco. Permaneceu, de certa forma, congelada em sua forma medieval.
Hoje, caminhar pelas ruas de Siena é uma experiência rara de imersão total na Idade Média europeia. A Piazza del Campo, com seu formato único de concha e o majestoso Palazzo Pubblico com a Torre del Mangia, continua sendo o coração pulsante da cidade — palco duas vezes por ano do lendário Palio, a corrida de cavalos que divide Siena em 17 contrade (bairros) rivais.
O Duomo, com sua fachada de mármore listrado em branco e verde escuro, a Biblioteca Piccolomini com seus afrescos luminosos, as vielas estreitas que sobem e descem as três colinas — tudo permanece quase como estava há setecentos anos.
Declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1995, Siena não é um museu petrificado, mas uma cidade viva que soube preservar sua identidade medieval sem abrir mão de sua vitalidade contemporânea. E nesse equilíbrio delicado entre passado e presente, continua a narrar sua história — sempre à sombra, e em rivalidade, com a vizinha siena.