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Palazzo Pitti

Quando pedra, poder e beleza se encontram no coração do Oltrarno.

A travessia do Arno marca a passagem. O Oltrarno é outro ritmo, outra luz. E no coração deste bairro, ergue-se uma massa de pedra que não pede licença para existir: o Palazzo Pitti.

A fachada imponente do Palazzo Pitti
A fachada imponente do Palazzo Pitti

Ambição em pedra

Em 1458, o banqueiro florentino Luca Pitti encomendou a construção deste palácio, determinado a criar a maior residência privada de Firenze. A rivalidade com os Médici era notória — dizia-se que Pitti exigiu janelas maiores que a entrada do Palazzo Medici.

Embora Giorgio Vasari tenha atribuído o projeto a Filippo Brunelleschi, hoje se credita Luca Fancelli como o arquiteto responsável, já que Brunelleschi havia morrido 12 anos antes do início da construção. O que é certo: a pedra rústica e os sete arcos repetidos três vezes criam uma atmosfera severa e poderosa, reminiscente de um aqueduto romano.

Quando os Médici chegaram

Escadaria monumental com teto em caixotões
Escadaria monumental com teto em caixotões

Em 1472, Luca Pitti morreu deixando o projeto de Brunelleschi inacabado, com apenas três grandes portas e duas fileiras de sete janelas na fachada. O palácio permaneceu abandonado até 1549, quando Eleonora di Toledo, esposa de Cosimo I de’ Medici, comprou-o como residência cerimonial digna do nascente Grão-Ducado.

Os Médici transformaram tudo. A partir de 1560, Bartolomeo Ammannati, arquiteto favorito do Grão-Duque, ampliou as alas frontal e traseira, e nos fundos nasceu o magnífico Giardino di Boboli.

O pátio de Ammannati

O grande pátio é obra-prima do maneirismo florentino. Ammannati concentrou sua intervenção nesta verdadeira praça real porticada, onde luz e geometria dialogam em perfeita harmonia.

O pátio maneirista de Bartolomeo Ammannati
O pátio maneirista de Bartolomeo Ammannati

Nas decorações dos muros, Ammannati recria um esquema clássico: colunas nos estilos dórico, jônico e coríntio, arcos que se sucedem criando um efeito óptico onde a parede parece se projetar para fora.

Salões de luz e cristal

Salão Branco, com lustres de cristal de Murano
Salão Branco, com lustres de cristal de Murano

No interior, o palácio revela séculos de acumulação de riqueza e arte. Cosimo I começou a reunir aqui preciosas coleções de arte e produções naturais, que hoje estão distribuídas pelos principais museus florentinos.

Os salões nobres exibem afrescos, estuques dourados e lustres monumentais — testemunhos de quando este era o centro do poder na Toscana. Durante os anos em que Florença foi capital da Itália (1865-1871), tornou-se a residência oficial de Victor Emmanuel II.

Detalhes arquitetônicos dos salões nobres
Detalhes arquitetônicos dos salões nobres

Cinco museus, um palácio

Hoje, o Palazzo Pitti abriga cinco museus. No térreo ficam o Tesouro dos Grão-Duques e o Museu de Ícones Russos; no primeiro andar, a Galleria Palatina e os Apartamentos Imperiais e Reais; no segundo andar, a Galeria de Arte Moderna e o Museu do Traje e da Moda.

A Galleria Palatina

Obras-primas da coleção Médici
Obras-primas da coleção Médici

A Galleria Palatina é a principal galeria do palácio, com mais de 500 pinturas renascentistas que pertenceram às coleções privadas dos Médici. Aqui estão obras de Ticiano, Rafael, Rubens e muitos outros mestres.

As salas mantêm a disposição original das pinturas — não organizadas por escola ou período, mas pela lógica decorativa dos salões nobres, como eram vistas pelos Grão-Duques.

Corredores e galerias do palácio
Corredores e galerias do palácio

Quando o jardim respira

Atravessar o palácio e chegar aos Jardins de Boboli é descobrir o verdadeiro coração do complexo. Em 1549, a Duquesa Eleonora di Toledo decidiu ampliar o jardim do palácio e contratou o arquiteto Niccolò Pericoli para elaborar o projeto.

Vista dos jardins de Boboli com Firenze ao fundo
Vista dos jardins de Boboli com Firenze ao fundo

Pericoli morreu antes do início das obras em 1550, mas no mesmo ano iniciaram-se os trabalhos do anfiteatro de vegetação. Depois vieram Bartolomeo Ammannati, Giorgio Vasari e Bernardo Buontalenti — cada um deixando sua marca neste jardim que se tornou um dos maiores e mais elegantes exemplos de jardim italiano no mundo.

O anfiteatro e o obelisco

Obelisco egípcio de Ramsés II
Obelisco egípcio de Ramsés II

O anfiteatro é dominado por um gigantesco obelisco egípcio que chegou de Luxor e foi colocado aqui em 1789. Este é o único obelisco encontrado na Toscana e um dos monumentos mais antigos da região.

O obelisco foi erguido originalmente em Heliópolis pelo Faraó Ramsés II em honra ao deus da criação. Como muitos outros obeliscos, foi transportado para Roma na antiguidade, depois para a Villa Medici, e finalmente para Florença em 1788 por vontade do Grão-Duque Pietro Leopoldo.

Base do obelisco com tartarugas romanas
Base do obelisco com tartarugas romanas

A base do obelisco é adornada com quatro tartarugas de época romana — elementos que já estavam presentes quando o monumento estava em Roma, e que se tornaram símbolos ligados à família Médici.

Grutas e fontes

Elementos arquitetônicos nos jardins
Elementos arquitetônicos nos jardins

Os jardins são um verdadeiro museu ao ar livre. As esculturas datam da época romana até o século XVII, distribuídas entre grutas, fontes, pérgulas e um pequeno lago.

A Grotta Grande, também chamada de Grotta del Buontalenti, é uma das mais fascinantes — construída com estalactites de concreto calcário, conchas e relevos de terracota, com água correndo pelas paredes.

Caminhos e perspectivas dos jardins de Boboli
Caminhos e perspectivas dos jardins de Boboli

A geometria verde

Os jardins ocupam 45.000 metros quadrados e foram abertos ao público em 1766. Caminhar por eles é atravessar séculos de história do paisagismo italiano — desde o Renascimento tardio até o Barroco e o Neoclássico.

Esculturas entre as árvores

Escultura clássica nos jardins
Escultura clássica nos jardins

Centenas de estátuas de mármore pontuam os caminhos. Algumas são antiguidades romanas, outras foram criadas especificamente para os jardins nos séculos XVI e XVII.

Entre as árvores centenárias, cada escultura parece narrar uma história mitológica, criando um diálogo constante entre natureza e arte.

Vista elevada dos jardins geométricos
Vista elevada dos jardins geométricos

Perspectivas infinitas

Alamedas e ciprestes
Alamedas e ciprestes

O Viottolone — a alameda central — desce suavemente entre estátuas e ciprestes. No fim, encontra-se a Vasca dell’Isolotto, construída em 1618, com uma pequena ilha central povoada por figuras mitológicas.

De cada ponto elevado dos jardins, Firenze se revela ao longe — cúpulas, torres, telhados vermelhos. O Palazzo Pitti não está na cidade: a cidade é que se organiza ao seu redor.

Detalhes escultóricos ao longo dos caminhos
Detalhes escultóricos ao longo dos caminhos

Luz que atravessa séculos

Caminhar pelo Palazzo Pitti e pelos Jardins de Boboli é atravessar camadas de tempo. O palácio foi residência de três dinastias: Médici, Habsburg-Lorraine e Savoy, cada uma deixando sua marca nas pedras e nos jardins.

Firenze vista dos jardins ao entardecer
Firenze vista dos jardins ao entardecer

O que começou como rivalidade de um banqueiro ambicioso transformou-se em símbolo de poder, arte e beleza. E hoje, aberto a todos, o conjunto permanece como testemunho de que a verdadeira grandeza não está no poder que se acumula, mas na beleza que se compartilha.

A luz do fim de tarde toca as pedras do palácio e os jardins ganham tons dourados. Firenze respira ao longe. E aqui, entre obeliscos egípcios e fontes barrocas, pedra e natureza continuam seu diálogo silencioso — o mesmo que os Médici ouviam, há cinco séculos atrás.

Fontes e Referências